Yooka-Laylee: um pequeno gigante

Não bastou homenagear — o game expande os fundamentos de jogos de plataforma em vários sentidos

  • Jogos
  • Do R7*
Reprodução/Kickstarter

Para a geração que jogava videogame na segunda metade dos anos 90, jogos de plataforma com mascotes eram algumas das coisas mais memoráveis às quais uma criança poderia ter acesso. Alguns jogavam Crash e Spyro; outros jogavam Mario e Banjo-Kazooie. Era uma explosão de cores e mundos, geralmente 3D, que ficou na cabeça de muita gente, como grandes desenhos animados de manhãs de sábado, só que interativos.

Mas os anos se passaram, e muita gente disse que o gênero morreu (assim como disseram sobre JRPGs). Graças ao Kickstarter, entretanto, muitos fãs estão recebendo o que desejavam mas não tinham como pedir, e Yooka-Laylee é um dos produtos dessa tendência.

Desenvolvido pelo estúdio Playtonic Games e distribuído pelo Team17, Yooka-Laylee é uma clara homenagem aos jogos de plataforma dessa era passada. Para ser mais específico, Banjo-Kazooie. Alguns dos profissionais presentes no clássico do Nintendo 64 estão aqui, e assim como Banjo-Kazooie remete a um banjo e a um kazoo, que são instrumentos musicais, Yooka-Laylee remete ao ukulele. Não tem muita frescura: é uma carta de amor ao design e ao clima do gênero, e é muito difícil explicar o apelo para quem não sente nostalgia.

Não se engane com as fotos de divulgação do Kickstarter: o combate não é frenético assim
Não se engane com as fotos de divulgação do Kickstarter: o combate não é frenético assim Reprodução/Kickstarter

Amor à primeira vista?

Lembra dos jogos antigos 3D que apareciam em revistas de videogame como se fossem a coisa mais descolada do mundo? E lembra que, mesmo sem ver ao vivo, você imaginava os jogos como algo grandioso, bonito e colorido? Em termos de apresentação, Yooka-Laylee é basicamente isso: ele não é tímido quando se trata de mostrar suas cores vibrantes. No primeiro mapa, a grama é extremamente verde, o céu é brilhante e as outras cores também são contrastantes. As construções e pontos mais visuais dos mapas são facilmente identificáveis, então é fácil saber onde você está mesmo só olhando ao seu redor.

O design visual das personagens não foge desse espírito: não são só animais falantes, mas nuvens, rodas, carrinhos, canhões e várias outros objetos que ganharam um par de olhos e uma personalidade.

A trilha sonora também não tenta se modernizar demais, e é eficaz. Ao invés de canções épicas, você tem apenas um monte de musiquinhas simples que você começa a cantarolar enquanto joga.

De fato, Yooka-Laylee causou uma boa primeira impressão. Infelizmente, ela não durou tanto.
Os problemas surgem na interface: não é só o fato de ser nostálgica e parecer um jogo de Nintendo 64; isso seria ótimo — o problema é que ela é lenta, difícil de navegar e, ao menos no PS4, muito frágil. Eu já tive que reiniciar o jogo múltiplas vezes quando os menus bugaram. Felizmente, nunca perdi muito progresso, mas é estranho ter um console com 8GB de RAM tendo problemas para renderizar o menu de um jogo de plataforma.
Outro grande problema reside nas personagens mencionadas acima: como eu disse, todo mundo tem personalidade, mas isso acaba virando uma verdadeira pedra no caminho. Enquanto jogos como Spyro e Mario tinham um elenco pequeno, carismático e móvel, que sempre te acompanhava no progresso da história, Yooka-Laylee oferece uma tonelada de personagens que só servem para te dar missões que te ajudam a avançar a aventura. E como ninguém tem uma dublagem “real”, tudo que você obtém ao conversar com qualquer personagem é um trocadilho e uma página de um livro. Com o tempo, você começa a esquecer de nomes, mesmo que Laylee seja uma das coisas mais fofas que eu já vi na vida.

As Playcoins são usadas para destravar minigames
As Playcoins são usadas para destravar minigames Reprodução/Kickstarter

Tamanho é documento

Yooka-Laylee tem uma fundação sólida. Apesar da câmera atrapalhar às vezes, o jogo é mais focado na exploração do que em ações rápidas, pelo menos no começo, então dá para se acostumar. O seu progresso se resume a aprender movimentos, explorar cada um dos 5 mundos e coletar páginas de um livro mágico. É simples.

O problema é que esse simples é inflado para ficar muito maior. Diferente de Spyro, Crash e Mario, estamos falando de 5 mundos gigantes, ao invés de vários mundinhos pequenos. Essa é uma das grandes falhas do jogo: cada um desses mundos é tão aberto que em muitos momentos é fácil se sentir perdido. A natureza tranquila e aventureira do jogo até complica essa condição, já que você nunca se sente “preso”, querendo jogar melhor; apenas quer progredir, perambulando por mapas enormes em busca de NPCs novos.

Mesmo sendo um sucessor de Banjo-Kazooie, Yooka-Laylee não segue todos os passos dos clássicos daquela era. Apenas tenta replicar as filosofias de design dos jogos de plataforma usando mais recursos.

Esse exagero no tamanho dos mapas e na quantidade de colecionáveis não é o único problema: as localizações dos objetos de interesse não são lá muito intuitivas. Algumas áreas interessantes, como torres ou florestas, não possuem quase nada em termos de conteúdo explorável, e se resumem a um NPC te desafiando para alguma coisa em troca de outra página. Ainda assim, Yooka-Laylee mostra que foi feito com paixão. Mesmo com problemas no design dos mapas, na interface, na câmera, na dificuldade e na falsa longevidade, é um jogo com alma, e apesar das minhas frustrações, foram poucos os momentos nos quais eu não sorri depois de uma piada do Laylee.

Yooka-Laylee é uma carta de amor de alguém que você não vê há décadas. Essa pessoa está ainda mais linda depois de várias plásticas, mas agora tem uma coleção de Crocs e manda gifs de “bom dia” no WhatsApp. Para quem ainda se interessa pela fórmula e quer apenas se jogar em um mundo novo e colorido, como fazia quando criança, Yooka-Laylee é uma opção sem muita concorrência, atualmente. Agora, se você deixou o passado para trás e prefere aproveitar as melhorias de qualidade de vida introduzidas nos últimos anos, o game pode frustrar.

* Colaborou Victor Fermino, do R7

Yooka-Laylee não é um jogo para todos. Nenhum jogo é
Yooka-Laylee não é um jogo para todos. Nenhum jogo é Reprodução/Kickstarter