Kingdom Hearts 2.8 parte 2: um sonho quase molhado

A coletânea termina rápido, mas um pouco de Aqua ajuda a engolir

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Não tem como não virar fã da Aqua em Birth By Sleep, e 0.2 só intensifica isso
Não tem como não virar fã da Aqua em Birth By Sleep, e 0.2 só intensifica isso R7

Publicamos nosso review falando do primeiro título da coleção Kingdom Hearts 2.8, e você pode conferir a resenha aqui. É importante dar uma lida, porque apesar de Dream Drop Distance não ter agradado tanto assim, é a obra mais carnuda desses três títulos.

Mas se você já leu, ou simplesmente não se importa com Dream Drop Distance porque já jogou no 3DS, não se preocupe: analisamos as outras coisas que vieram na coleção, mesmo que só uma seja um jogo.

Kingdom Hearts 0.2: Birth by Sleep – A Fragmentary Passage


Apesar do nome sugerir que essa é a experiência mais curta, 0.2 não é uma mera tech demo. Pode-se dizer que é o Ground Zeroes de Kingdom Hearts III, na verdade.

Mudanças para melhor

Depois de praticamente pular uma geração, parece que Kingdom Hearts finalmente teve um avanço significativo em alguns departamentos. Combate nunca foi um problema na série (exceto por DDD), mas essa mudança drástica de engine corrigiu pequenos probleminhas, enquanto introduziu outras preocupações.

Quando eu iniciei o jogo, a primeira coisa que me fez sorrir foi a abertura. Por algum motivo, foi só quando assisti ela que senti estar jogando Kingdom Hearts de novo, coisa que eu não senti em momento algum em DDD. Sei que parece exagero, mas o clima é totalmente diferente. A abertura de 0.2 tem um ar de nova geração, e só vendo pra entender (e sim, é outro remix da Utada Hikaru):

Primeiramente, você joga com Aqua, que era a melhor protagonista de Birth By Sleep. Só que a primeira coisa que dá pra perceber é que ela é rápida. Rápida até demais. E isso é refrescante, porque não mais precisamos rolar ou pular o tempo todo para percorrer qualquer caminho; ao invés disso, Aqua se esquiva rapidamente, e começa a correr mais rápido automaticamente. Isso serve também para mostrar como os novos mapas são maiores e mais complexos: ao invés de linhas retas constantes, agora temos passagens escondidas, mas não necessariamente secretas, além de múltiplos níveis verticais para aproveitar os pulos.

Essa agilidade é traduzida também para o combate. Ele é muito simplificado, afinal Aqua começa o jogo já no nível 50, com um grande leque de habilidades que sequer são explicadas, mas tudo bem. O que importa é que usar magias é violentamente rápido. Foi só então que percebi quão lento era o ato de usar um mísero Fire em qualquer outro Kingdom Hearts. Em 0.2, dá pra fazer combos, e as magias possuem um peso de verdade: Blizzaga congela os inimigos de fogo e tem um feedback visual claro do que está acontecendo, por exemplo.

Os mapas não são maiores só em escala, mas também em profundidade. Há mais segredos e caminhos ocultos
Os mapas não são maiores só em escala, mas também em profundidade. Há mais segredos e caminhos ocultos R7

Mas, como eu disse, essa mudança no esquema de jogo traz algumas mudanças indesejáveis: primeiramente, parece que só os modelos foram feitos do zero. Sei que parece absurdo, mas a direção de arte tomou um rumo mais realista, o que dá um ar de projeto de fã. O desempenho não ajuda, já que qualquer luta que envolva um número grande de inimigos faz com que o jogo funcione a 15 frames por segundo. É algo que pode ser melhorado na versão final, mas é normal ficar com um pé atrás.

Outra coisa que pode distorcer a visão dos jogadores a respeito do futuro título é que começar com a Aqua pode ser divertido, sim, mas ela não representa como um arco de dificuldade funciona. Kingdom Hearts III deve ser um RPG de mais de 30 horas, e não uma experiência de 2 horas, como é o 0.2.

Mas como é essa demo?

Fundamentalmente, é um bom jogo. Diferente de Dream Drop Distance, já mostra ser Kingdom Hearts desde a abertura. Eu já falei da agilidade do combate, mas em 0.2, temos também os objetivos, que são achievements internos e desbloqueiam itens cosméticos. Protagonista feminina e itens cosméticos? Que surpresa.

Só esses objetivos secundários, que envolvem matar 40 inimigos específicos ou usar magias em diferentes situações, já aumentam a longevidade assim como aumentaram em Ground Zeroes: não muito.

Obrigado, Unreal Engine
Obrigado, Unreal Engine R7

Uma das coisas que mais me agradou, entretanto, foi a presença de puzzles de verdade. Durante sua jornada pelo Mundo Sombrio, Aqua encontra uns espelhos, e isso gera segmentos onde você deve, por exemplo, olhar em volta para descobrir um pilar diferente dos outros antes que a sala perca toda a luz. É complicado explicar. O importante é saber que esse jogo é um passo na direção certa. Se Kingdom Hearts III implementar tudo que foi mostrado em 0.2, teremos um RPG completo em mãos.

Papel na coletânea

De certa forma, 0.2 é o auge da coletânea. Não por ser o jogo que tem mais conteúdo, obviamente, mas por oferecer alguma coisa nova. Não só em termos de enredo, mas principalmente por dar um gostinho do que veremos em Kingdom Hearts III.

Como coleção, pode-se dizer que o II.8 é fraquinho justamente por não conter nenhum jogo da estirpe de Kingdom Hearts, Kingdom Hearts II ou mesmo o Birth By Sleep, mas pelo preço, é complicado recusar. 0.2 é um bom jogo, mesmo que curto, e Dream Drop Distance HD é, no mínimo, uma experiência que lembra jogos medianos de PS2.

Kingdom Hearts χ Back Cover

Apesar das limitações, os gráficos são bem feitinhos, e a direção de arte não é ruim
Apesar das limitações, os gráficos são bem feitinhos, e a direção de arte não é ruim Reprodução/Flickr

Eu até me sinto estranho falando desse título. Primeiro, porque não é um jogo, e sim um filme que ilustra os acontecimentos principais no jogo mobile Kingdom Hearts χ, que eu só joguei por 15 minutos. Segundo, porque a pronúncia é Kingdom Hearts Chi, o que é bem estranho.

De qualquer forma, Back Cover é exatamente o que promete: um filme que desenvolve um pouco melhor a mitologia da série.

Com personagens baseadas nos 7 pecados capitais, Back Cover mostra a real origem do Kingdom Hearts como "lugar", assim como o funcionamento dos diferentes mundos.

Não é muito difícil sentir simpatia pelas personagens, e gostar do drama deles (que é surpreendentemente adulto), mas falta desenvolvimento à maioria deles.

Há algumas cenas de luta, mas o mais importante nessa história (que não pude capturar porque tem limitação no botão Share) é entender todo o simbolismo de luz e escuridão, presente desde o primeiro Kingdom Hearts. A escuridão, em Back Cover, não é só um monstro com tentáculos e textura plana, mas sim a própria escuridão interior das personagens, que sentem medo e inveja. Diferente do drama de Sora e Riku, isso não é transmitido por discussões metafísicas, mas sim com atos mais simples, em encontros do grupo de protagonistas. É engraçado como a recontagem de uma história contada em um jogo mobile trata disso de um jeito mais maduro do que os títulos principais.

Ainda assim, Back Cover, mesmo sendo curto, não consegue prender muito a atenção. Sabe quando os diálogos são travados e as conversas demoram porque há um intervalo entre as falas de cada personagem? Isso acontece, e tira a paciência, porque dava pra condensar a história em 15 ou 20 minutos.

Nenhum jogo da coleção explica o tamanho das mãos das personagens, infelizmente
Nenhum jogo da coleção explica o tamanho das mãos das personagens, infelizmente R7

Vale a pena?

A pergunta que não quer calar é essa. Afinal, se você quer um RPG, por que não comprar Horizon: Zero Dawn? Talvez você queira um JRPG, mas aí você pode jogar Persona 5 ou Tales of Berseria.

Se você está se perguntando isso, Kingdom Hearts II.8 com certeza não é pra você. Ele é um pedaço de algo maior, e vale mais a pena se você já tiver a outra coleção de Kingdom Hearts já disponível para PS4. Os jogos vão ficar ainda mais baratos quando Kingdom Hearts III estiver visível no horizonte, o que deve demorar um bom tempo.

Agora, se você gosta da série, ou se quer entrar nela de cabeça, II.8 é essencial. E a vantagem é que ele não vai custar nem muito tempo nem muito dinheiro.

* Victor Fermino, do R7