Breath of the Wild é a melhor experiência que você vai ter com um videogame em 2017

O novo The Legend of Zelda transborda nostalgia e mostra a Nintendo em sua melhor forma

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  • Tiago Alcantara, do R7

Uma confissão: corrigi uma falha grave de caráter recentemente. Até 2012, nunca havia jogado um The Legend of Zelda. Não vivi A Link To The Past no SNES e nem tive a oportunidade de apreciar Ocarina of Time no Nintendo 64. No entanto, pude admirar, anos depois, a genialidade desses e outros games da franquia.

Depois de cumprir o “roteiro obrigatório”, guiado por bons amigos, posso dizer que joguei Breath of the Wild desde seu primeiro dia. Na verdade, minha história com o game começou anos antes do jogo chegar na primeira sexta-feira de março de 2017, junto com o novo console – e promessa – da companhia de games japonesa. O “novo Zelda” foi um dos motivos que me fizeram comprar um Wii U antes de um PlayStation 4. No fim das contas, comprei até um Switch antes da ótima plataforma da Sony, mas isso é outra história.

Os sucessivos atrasos no lançamento do game com certeza deixaram os fãs muito chateados. Posso dizer que me incluo na lista de pessoas que gostaria de ter um Zelda exclusivo para o “console incompreendido” (Wii U) da Nintendo. Aproveitei esse tempo para me atualizar com a série e, vendo a situação em perspectiva, 70 horas depois de BotW, com a principal missão terminada, menos da metade dos desafios completados e MUITO mais por explorar nessa nova e intrigante Hyrule, não tenho dúvida de que tudo valeu a pena. Breath of The Wild no Nintendo Switch é a melhor experiência com um videogame que você terá em 2017.

O cenários são vastos e cheios de surpresas, não raro você se desvia de uma missão para explorar
O cenários são vastos e cheios de surpresas, não raro você se desvia de uma missão para explorar Reprodução/Nintendo Switch

Ok, você pode já ter escutado ou lido isso em outros lugares. Esse game é a experiência mais emotiva e ao mesmo tempo emocionante que vivi com um controle na mão em muito tempo. Aqui vão as minhas razões para colocar esse game na lista de jogos que vou me recordar e jogar com carinho por toda uma vida.

Hyrule, 100 anos depois

Link acorda em uma Hyrule em que ele foi derrotado há 100 anos. Tem mais: Zelda (não é spoiler) está impedindo que Ganon destrua todo o reino. A sensação de nostalgia é presente em todo o começo do jogo. A trilha sonora, os primeiros cenários e a própria situação em que você reencontra Link... É impossível que um fã da saga não seja invadido por uma sensação de melancolia, até de perda.

Link precisa "aprender a ser Link" no começo do jogo
Link precisa "aprender a ser Link" no começo do jogo Reprodução/Nintendo Switch

O jogo começa com uma espécie de cartão de visitas dos desenvolvedores. Não é só o Zelda com gráficos melhorados. É um Legend of Zelda com um visual marcante e um Link com habilidades para escalar, correr e explorar um vasto mundo cheio de desafios e tecnologias novas. O cenário e ambientação não poderiam ser mais atuais, o Link de BotW tem até mesmo um iPad como navegador, controla suas habilidades com runas (ou seriam apps) e até mesmo pode tirar selfies.

O fascínio com os vários acertos técnicos e novas mecânicas não fica apenas na primeira impressão. A forma como Link demonstra cansaço após sua barra de vigor chegar ao fim ou mesmo sua reação aos diferentes climas são detalhes que mostram o quão cuidadosa foi a produção do jogo. Ao mesmo tempo, a liberdade é total. Nada é obrigatório. Você pode, simplesmente, “terminar” a principal missão de BotW indo para o castelo e salvando Zelda. Em apenas uma hora.

Escalar é um prazer que rapidamente se torna uma tortura no começo do jogo. Com tempo e equipamento certo, tudo vai se encaixando e a progressão do game é natural. Um ponto que precisa ser dito. Em nenhum momento você é "empurrado" pelo game a fazer algo ou enfrentar inimigos mais fortes. É sempre possível "dar a volta" e contornar aquela rocha gigante que começou a te ameaçar. Vencer um acampamento de bokoblins mesmo sem ter armas tão poderosas, na base da estratégia, é recompensador para a sua moral, além de render equipamento bem interessante.

O cenário de Hyrule 100 anos depois de ser derrotado pelo poderoso Ganon; mas ainda há esperança
O cenário de Hyrule 100 anos depois de ser derrotado pelo poderoso Ganon; mas ainda há esperança Reprodução/Nintendo Switch

Para descobrir o que aconteceu, você pode reviver momentos de 100 anos atrás por meio das memórias de Link que são recuperadas ao encontrar fotos feitas por Zelda. Muitas pessoas podem simplesmente ficar perdidas por longas horas em busca de todos os locais que despertam as lembranças do protagonista sobre a princesa, o reino e como Ganon foi capaz de ludibriar toda a tecnologia avançada dessa versão de Hyrule.

Uma outra surpresa é que os personagens têm voz nessa versão de The Legend of Zelda. Uma "novidade" que é muito bem-vinda, levando em conta que o trabalho de dublagem, mesmo em inglês, foi extremamente bem executado. Não se engane, você não vai escutar lá muito de Link além das reações que todos já estamos acostumados a ouvir. Nem tudo é perfeito...

Uma Zelda "de verdade"

O jogo vai se construindo a medida que você explora os desafios dessa nova Hyrule. A experiência de completar quebra-cabeças é recompensadora e, ao mesmo tempo, fazem com que ele seja ideal para rodar no Nintendo Switch. Após reunir quatro orbes, você pode trocar por mais vigor físico ou corações de vida. Esses pequenos minutos de gameplay fazem da experiência de Zelda no Switch ainda mais interessante, já que você pode jogar o game completo onde quiser.

Zelda é um personagem icônico e a princesa de Hyrule está gravada na história dos videogames para sempre. No entanto, sinto como se Breath of The Wild fosse o primeiro game a realmente apresentar uma Zelda não idealizada. Ou seja, uma personagem que todo fã de games conhece, mas que foi explorada por um lado mais "realista" pela primeira vez. Afinal, qual é a pressão de proteger um reino, sendo portadora de um poder que você nem sabe que existe?

 

 

O game apresenta o mundo por meio das memórias de Zelda
O game apresenta o mundo por meio das memórias de Zelda Reprodução/Nintendo Switch
A protagonista é mais do que a donzela em apuros
A protagonista é mais do que a donzela em apuros Reprodução/Nintendo Switch

 

 

Sob vários aspectos, essa não é apenas "a donzela que você precisa salvar". Certamente a versão da heroína figura ao lado da Zelda de Ocarina of Time como minha favorita de todos os tempos. É exatamente ao conhecer e entender os desafios da princesa que desenvolvi um sentimento de urgência cada vez maior em entender a história do Calamity Ganon e ser um guerreiro melhor. A cada nova memória, a cada novo desafio enfrentado, o jogador vai criando uma empatia maior por esse mundo e pela responsabilidade de protegê-lo. Poucos jogos conseguem fazer esse tipo de motivação tão palpável, tão urgente. Breath of the Wild vai muito além do "faça isso e aquilo para zerar o jogo".

Você ainda é convidado a resgatar os quatro guardiões, guerreiros das raças que compõe a mitologia de tantos Zelda. Esses campeões têm um papel fundamental para quem pretende entender a história do game. Mais do que isso, cada campeão é responsável por pilotar uma espécie de monstro-robô gigante e a forma como cada um desses quatro monstros se tornam um puzzle é fascinante - além de fazer você queimar os neurônios tentando decifrar os quebra-cabeças.

O design de BotW de fato é delicado ao tratar a mitologia da franquia e é possível perceber esse esmero em cada nova vila, cada diálogo e nas quase infinitas referências feitas ao longo do jogo. Não é para menos - estamos falando de uma das franquias mais amadas do público gamer e dos designers que criaram esse título, além de influenciarem tantos outros criadores. A própria trilha sonora revisita os momentos marcantes da série de forma magistral.

Se você quiser ter uma noção do belo trabalho do produtor Eiji Aonuma e companhia, assista ao vídeo que a Nintendo publicou no seu canal oficial do YouTube com o making-of do game. Vale muito a pena! (conteúdo com legendas em inglês)

Por falar em trilha sonora, se você ouvir um pianinho estridente, corra, amigo! A Hyrule é habitada por vários guardiães, robôs que disparam lasers mortais para quem está começando essa aventura. Mas, não fique chateado, você vai dar o troco em todos esses malas no tempo certo. BotW permite que o jogador tenha um tipo de liberdade inédito na forma como Link aborda o mundo a sua volta. Você vai fazer apenas o suficiente para chegar ao final da história principal ou quer interagir com todos os NPCs possíveis, realizando sidequests de vários níveis de dificuldade?

Ah, falando de mapa, ele é simplesmente IMENSO. No entanto, não basta ser grande. Outros jogos, alguns até para Wii U também trazem essa característica. O que faz BotW se destacar é que há sempre um detalhe, há sempre uma descoberta a ser feita. A sensação de exploração é tão satisfatória que me peguei várias vezes "turistando" Hyrule. Mais: é possível e bem provável que você converse com amigos que passaram o mesmo ou mais tempo do que você jogando e encontrar lugares que não foram visitados por ambos.

A forma que os produtores encontraram de facilitar os deslocamentos também é digna de aplausos. A possibilidade de subir em um local alto e simplesmente planar apreciando a vista - ou cair com estilo - é simplesmente genial. Tem mais, você pode surfar no seu escudo para descer de uma colina ou montanha. Sem falar nos cavalos e outros tipos de seres que você encontra pelo caminho.

Sério, você precisa salvar essa galera!
Sério, você precisa salvar essa galera! Reprodução/Nintendo Switch

Comida e combate!

Breath of the Wild te transforma em um caçador-coletor. Sim, bem parecido como um dos primeiros seres humanos que habitaram a Terra e não trabalhavam para poder se alimentar. Aparentemente, a avançada Hyrule se encontra em fase anterior à chamada revolução agrícola e Link tem que coletar e cozinhar sua própria comida com base nos ingredientes disponíveis em abundância no reino.

Aos poucos o ato de cozinhar e experimentar se torna algo divertido e intrínseco aos seus avanços pelas áreas do reino. Ao desbravar, novos ingredientes se tornam conhecidos e você pode criar novos pratos. Ter sempre o que comer garante que você não morra tanto. Há ainda a possibilidade de unir partes de monstros e plantas para criar itens medicinais ou que aumentem seu status por diferentes períodos de tempo.

Tudo fica bem mais fácil depois que você começa a cozinhar
Tudo fica bem mais fácil depois que você começa a cozinhar Reprodução/Nintendo Switch

O sistema de combate pega várias mecânicas emprestadas de jogos anteriores e os transforma em algo único. Você poderá aproveitar melhor as armas se descobrir que pode desviar no momento certo dos golpes de seus oponentes. O arco e outras runas podem ser controlados usando o movimento dos joy-con. Mas, ao contrário de entradas anteriores, os movimentos são naturais e prazerosos, permitindo uma imersão maior na aventura.

Ser um caçador é muito mais interessante com a ajuda dos novos controles do Switch. Prova que a aposta da Nintendo no console foi acertada. Uma dica: talvez não seja uma boa ideia um ataque frontal. Pensar nas diferentes abordagens possíveis é um dos pontos altos desse tipo de game. Mas, ao contrário de um Dark Souls, em nenhum momento Breath of the Wild te decepciona pela falta de habilidade - e essa não é uma crítica. Pelo contrário, o tom mais leve ajuda a enfrentar os desafios com engenhosidade ou simplesmente pegar um caminho diferente, quem nunca?

Um encontro decepcionante? O terceiro membro da Triforce, Calamity Ganon é uma presença constante no game. Claro, você vê sua aura de vários lugares do mapa. No entanto, quando as coisas chegam as "vias de fato", o encontro talvez não atenda as expectativas de todos os jogadores. Essa versão de Ganondorf me trouxe um sentimento parecido com o de estar enfrentando Sauron. Aquele vilão que é mais como o mal que assola o mundo materializado do que propriamente alguém que você queira combater com uma espada lendária.

No entanto, devo dizer que Ganon faz um bom trabalho em manter você distante do castelo por um longo tempo. Apesar dos corredores conseguirem terminar o game em poucas horas, certamente jogadores normais sentirão o poder e a fúria do vilão sempre que uma Blood Moon surgir nos céus do reino. 

Os elementos mais amados da franquia estão de volta ao lado de novidades que revitalizam o tal "mundo aberto"
Os elementos mais amados da franquia estão de volta ao lado de novidades que revitalizam o tal "mundo aberto" Reprodução/Nintendo Switch

Um Legend of Zelda histórico

Comercialmente, Breath of the Wild cumpriu seu papel brilhantemente e até surpreendeu "analistas" que afirmavam que a franquia não seria capaz de vender consoles. A Big-N conseguiu não só virar esse jogo, como a decisão de trazer o título para o line-up de lançamento do novíssimo console polarizou as conversas em torno do Switch. Basta dizer que, no mesmo período, tivemos o lançamento de outros nomes como Horizon: Zero Dawn e Persona 5. Dois jogaços exclusivos para o PlayStation 4.

Ainda nesse aspecto, o game foi além: há mais cópias de The Legend of Zelda: Breath of the Wild vendidas para o Nintendo Switch do que videogames. A Nintendo atribui essa situação ao fato de que vários jogadores compraram versões especiais do game e versões digitais ou físicas nas pré-vendas.

As mecânicas, liberdade e a união com um console que entrega um conceito ousado e certeiro são um sopro de vida em uma história que sempre vale a pena escutar. Como entrada na franquia, Breath of the Wild é mais uma das obras-primas trazidas por um time de lendas da indústria dos videogames. É a Nintendo em sua melhor forma, capaz de entregar produtos encantadores e de supreender uma fórmula que parecia já ter atingido seu auge. Certamente, é um daqueles jogos que vai ser comentado por anos e uma experiência imperdível até para quem está chegando agora.

PS: Eiji Aounuma promete surpresas para o próximo título de Zelda. Depois de tantas horas satisfatórias no Switch, eu compraria qualquer coisa com o nome desse homem nos créditos. De olhos fechados.